Andarilhos virtuais...

3 de maio de 2009

O quase nunca é o bastante


Fotografia: Milton Montenegro - Sísifo - 1988

Atirem a primeira pedra quem nunca quase passou no vestibular, quase ganhou na Mega-Sena, quase teve um aumento de 50% no salário, quase bateu o carro, quase atropelou um cachorrinho, quase xingou o chefe, quase perdeu a cabeça, quase terminou o namoro desconfiado (a) por causa de uma suposta traição, quase conseguiu comer três Big Mac, quase ficou em coma alcoólico, quase sofreu um acidente, quase foi assaltado, quase fez xixi na roupa, quase rodou a ‘baiana’, quase pediu demissão, quase gritou que amava alguém, quase casou...
O quase, quando se refere a algo bom, sempre atrapalha. Mas quando indica algo ruim agradecemos a Deus por ele existir. Diversas pessoas não conseguem se desgrudar do quase e, por isso, acabam deixando a oportunidade passar. Outras têm a história parecida com a de Sísifo (personagem da mitologia grega), ou seja, essas pessoas são condenadas em rolar, por toda à vida, um enorme bloco de pedra até o topo de uma montanha para depois vê-la caindo no mesmo lugar. E, insistentemente, elas se põem a carregar, mais uma vez, o fardo montanha acima.
Só conseguimos vencer pelo cansaço quando acreditamos na vitória. Sem esforço e pensamento positivo a pessoa aceita a maldição de Sísifo e, por mais que tente rolar a gigante rocha, se frustra em ter que recomeçar. O quase pode trazer inúmeras consequências, a pior delas é a ânsia de tudo que poderia ter sido e não foi. Um enorme ponto de interrogação se posta sob nossas cabeças e somos bombardeados de dúvidas sobre coisas que deveríamos ter feito ou, ao menos, tentado fazer. Pessoas assim não são fortes o bastante como Sísifo.
Sísifo quase conseguiu cumprir sua meta, que era o de empurrar a pedra gigante até o outro lado da montanha. Só não deu certo porque os obstáculos – como o peso da rocha – obrigavam-no a retroceder. Mas isso não é motivo para desânimo. Sísifo não desanimou! Por mais que ele tenha sido derrotado pelo destino, foi considerado um heroi guerreiro, pois aproveitou até os últimos dias da sua vida para tentar se libertar do fardo pesado que carregava.
Prestem atenção: o mal de Sísifo não é para sempre. Enquanto a pedra voltava para o ponto de partida, ele, com o rosto suado de tanto esforço, lutava para o fim daquela sina. Mesmo com a morte insistindo em levá-lo a vida o renovava. Ser Sísifo é ter hábito de trabalhar muito, de saber o que acontecerá quando chegar lá no alto. Ele sabia o que carregava: era sua vida. A vida recomeça em cada fruto e é assim que se multiplica a eterna luta. A vida na vida se inicia. Vários Sísifos já nasceram, uns lutam exaustivamente para chegar ao cume, mesmo sabendo que a caminhada é longa e quando chegar lá já vão estar velhinhos, e outros já desistiram, com medo de nunca chegarem ao topo.

Um comentário:

Walkyria Suleiman disse...

Muito certo isso....vamos ser Sísifos pela vida afora. Afinal, é a nossa pedra, a nossa montanha, a nossa vida. E tem melhor do que viver de verdade?