Andarilhos virtuais...

25 de maio de 2008

O código de Hamurabi


Fonte
www.nonaarte.com.br


Saiba mais:

Quando em 2025 a.C. os amorreus invadiram a Mesopotâmia, fizeram de Babilônia a capital do reino. As obras de arte revelam que os amorreus eram fisicamente diferentes de seus antecessores. No período amorrita, armazenaram-se mitos antigos, velhas epopéias, textos medicinais e escritos astrológicos. Graças aos escribas, o mundo tem conhecimento de dicionários e legislação da­quele glorioso período.

Evidente personagem da Antigüidade, Hamu­rabi (Khamu-Rabi – sécs. XVIII e XVII a.C.), sexto rei da I Dinastia Babilônica, reinou de 1728 a 1686 a.C., aproximadamente, caracterizando-se como verdadeiro criador do Império Babilônico, guerreiro, político e legislador. No início do séc. XVII a.C., o rei Hamurabi enfrentou uma coalizão de helanitas, assírios e outros, quando ocupou a região ao longo do Tigre até a Assíria, apoderou-se de Sarsa e de Mari, conseguindo a unificação da Babilônia Meridional.

Com ele, a Babilônia tornou-se herdeira de toda civilização sumério-acádia. Resgatou-a, respeitando seu enraiza­mento, expandiu-a, deixando nela suas marcas, e fazendo da Babilônia uma grande metrópole espiritual. Fundiu a religião dos semitas e sumérios, sobrepondo as figuras divinas afins. Restaurou os mais importantes templos do país e no palácio real de Mari, por ele terminado, encontrou-se, recentemente, 20 mil tábuas de argila com escrita cuneiforme.

A Hamurabi cabe a coleção de legislação mais antiga que se conhece, monumento jurídico da Antigüidade Oriental, universalmente nomeada como o Código de Hamurabi. Encontrado nas ruínas da acrópole de Su­sa, em 1901, e proveniente do templo do sol, de Ebbara, em Sip­par, o monumento com seu código possui 46 colunas e 3.600 linhas, gravado em uma estrela cilín­drica de basalto negro, onde ele é representado adorando Shamash, o deus Sol, de quem recebe o espírito de eqüidade e justiça, em ato de sub­missão e atenção. Shamash tem em sua mão esquerda um pequeno cetro e um círculo, símbolo do ciclo dos tempos regulado pelo sol e acima dele se desprende dois feixes de luz.

O Código de Hamurabi prescrevia pena idêntica à ofensa praticada, Lei de Talião, numa concepção jurídica inflexível, que lembra a do Antigo Testamento e que se revela como testemunho de sua preocupação pela vida e bem-estar de seus súditos, garantindo a todo homem igual direito à justiça. Abrangiam toda atividade profissional com honorários e punições regidos por lei, como também a conduta de uma pessoa para com a outra, quando especifica que “se um homem destrói os olhos de outro, seu olho deve ser destruído”.
A prática médica recebe 10 pequenas disposições com valores de pagamento e punições por imperícia. Nelas, Hamurabi coloca sua preocupação em harmonizar os costumes, gerando para cada classe social diferentes comprometimentos, “10 moedas de prata para remoção de tumor com faca e curar seus olhos, 5 se for filho de plebeu e, se escravo, o dono pagará 2 moedas”. Com relação às punições, “sua mão deverá ser cortada se o paciente morrer ou ter seus olhos destruídos na remoção de tumor com faca”, ou “se o médico, tratando o escravo de um plebeu com uma faca por um severo ferimento, lhe causar a morte, deverá pagar escravo por escravo.”

A medicina babilônica justapõe os primeiros elementos de uma interpretação científica das doenças aos pro­ce­dimentos mágico-religiosos. Sob o conhecimento empírico ba­bi­­lô­­ni­co, pela primeira vez, começa-se a relevar os sintomas das doen­ças. Porém continuava a prática de conjuração dos demônios, paralelamente à sistematização astronômico-astrológica da medicina. Seus conceitos de astrologia foram usados na medicina greco-romana, arábica e no período medieval. A profissão médica, como a entendemos, não existia e só começará a aparecer no Antigo Egito.

Fonte: Berta Ricardo de Mazzieri é museóloga do Museu Histórico da Faculdade de Medicina da USP.
http://www.cremesp.org.br/revistasermedico/sermedico010203_2002/historia_medicina.htm

18 de maio de 2008

O Nome da Rosa

Para quem leu "Sonho Lendário II" vai lembrar da citação que fiz do livro "O Nome da Rosa", de Umberco Eco.
Para descontrair, segue abaixo a tirinha:


Fonte
www.nonaarte.com.br

15 de maio de 2008

11 de maio de 2008

A doença de Josef Fritzl



Tela: Salvador Dali

O mito de Narciso é conhecido universalmente. De acordo com a lenda, o deus nasceu com uma beleza inigualável e, por causa de uma maldição, apaixonou-se pelo seu próprio reflexo. No entanto, diversas pessoas não vêem ou não percebem que o mito de Narciso ainda está vivo e presente em cada um de nós.
Narciso vem do grego Narkissos, que significa entorpecimento ou torpor, do qual originou a palavra narcótico (entorpecente). O termo Narciso é freqüentemente usado como pejorativo para designar vaidade ou egoísmo. Quando se refere a um grupo social, o conceito narcisismo ou narcisista aparece para se referir a comunidades elitistas, etnocentristas ou que se julgam superiores.
Porém, todos nós estamos procurando constantemente pelo nosso reflexo. Isso inclui a admiração, o reconhecimento pelo que somos e o progresso que construímos. Entretanto, quando esse auto-amor é exagerado, a compaixão pelo outro desaparece.
Narciso ficou louco e morreu. Isso porque seus olhos ficaram presos na sua imagem refletida nas águas e, ao se recusar comer, Narciso se suicidou.
Tal descoberta fez com que vários psiquiatras, psicanalistas e psicólogos utilizassem essas características patológicas de Narciso para designar outros transtornos. Surgindo, então, a Síndrome do Narcisismo Maligno ou Personalidade Perversa.
A estrutura narcisística do psicopata se encaixa perfeitamente com o comportamento do austríaco Josef Fritzl – acusado de prender a filha Elizabeth, durante 24 anos, num porão. Segundo o criminologista e psicólogo Thomas Muller, Fritzl apresenta sintomas típicos de “narcisismo maligno”.
Sem dúvidas, Fritzl foi cruel. E, através de sua eloqüente inteligência, mentiu para o mundo todo sobre o desaparecimento de Elizabeth. Sua criatividade era interminável e a gravidade da situação também. Creio que, para Fritzl, tudo está perdido, pois indivíduos que apresentam essa personalidade não sentem nenhum tipo de culpa, vergonha e arrependimento. Ao contrário, manipulam pessoas com recursos enganosos, procuram excessivamente elogios por parte dos outros e, o principal, os laços de amor entre familiares não existem nesses psicopatas.
Infelizmente, os sintomas de Narciso sempre viverão dentro de cada pessoa. Claro que esse sentimento é ruim, pois através dele que surge o preconceito e o racismo. Quando seguimos apenas nossos reflexos, assim como no mito, nos suicidamos em guerras e excluímos o outro por ser diferente.
Talvez exista alguma esperança, pois a lenda de Narciso dizia que ele era descendente das águas e esta simbologia significa fecundidade e renascimento. Quem sabe, após tal reflexão, possamos renascer para o progresso de um mundo melhor e termos a sabedoria de identificar no outro a importância do seu valor como ser humano.

27 de abril de 2008

Sonho Lendário II

Acordei assustada com o barulho do despertador. Por alguns minutos, refleti sobre esse sonho tão maluco. Eu ainda conseguia ouvir a voz de Zeus e tremia só de lembrar daqueles olhos tão expressivos. Tentei levantar da cama, mas meu corpo estava muito cansado.
Fechei os olhos novamente e, mais uma vez, peguei no sono. Fui voando para o Monte Olimpo. Meu corpo era leve como plumas flutuantes. O pôr-do-sol, na morada dos deuses, era magnífico. Lá estava eu, de novo, me preparando para bater na porta de nuvem. Mas antes disso acontecer, as deusas Estações abriram a porta para se despedir dos deuses. Fiquei triste, pois eu sabia que, sempre no final do dia, os imortais iam embora para suas casas. Alguns moravam na Terra, nas águas ou embaixo do mundo. Acabei desistindo de ir até o palácio. Então, fui caminhar num bosque desconhecido. Desci por uma gruta situada ao lado do promontório de Tenaro e cheguei ao reino do Estige. Esse lugar me recorda um livro muito conhecido, “O nome da rosa”, de Umberto Eco, onde vários assassinatos aconteciam em um mosteiro sombrio e medonho.
Claro que no reino do Estige não havia assassinato, pois a multidão que eu acabara de ver era das trevas. Ou seja, todos eles já estavam mortos. Inúmeros fantasmas vieram me perguntar sobre a vida de várias pessoas que moram na Terra. Mas um espectro, acuado em um canto escuro, me chamou atenção. Reparei que ele possuía um broche com um símbolo nazista.
Homero passou as mãos frias em meus cabelos e sussurrou no meu ouvido dizendo que, aquele no canto, era o Hitler. Nunca pensei em encontrar Hitler no reino de Hades, pois ele sempre afirmava que, quando morresse, iria para o palácio de Valhala. No entanto, só os corajosos guerreiros, mortos em combate, são escolhidos por Odin - na mitologia Nórdica, significa senhor da magia e deus da sabedoria - e, quando selecionados, podem desfrutar dos festins, das bebidas de hidromel, fornecida pela cabra Heidrum e da carne do javali Schrinnir. Pelo jeito, Hitler não teve escolha ou, por assim dizer, não foi escolhido por Odin.
Depois que passei pela multidão de almas, apresentei-me diante do trono de Hades (Plutão) e Prosérpina (Perséfone). Eles fizeram um gesto imperceptível com a cabeça, logo percebi que os deuses estavam hipnotizados com a música de Orfeu. O som da sua lira encantava diversos seres, que se reuniam em torno dele em transe. Nesse momento, todos os fantasmas choraram, o abutre parou de despedaçar o fígado de Prometeu, as filhas de Danaus descansaram do trabalho de carregar água, as faces das Fúrias se umedeceram, Argos fechou seus cem olhos, Sísifo sentou-se em seu rochedo para ouvir a melodia e eu adormeci no meu próprio sonho...

22 de abril de 2008

Sonho Lendário I

Sonhei com um palácio gigantesco. Ele ficava bem no topo do Monte Olimpo. Bati em uma porta de nuvem e várias deusas chamadas de Estações me desejaram boas vindas. Bem no centro do salão, sentado em seu trono, eu vi o rei Zeus. Ele acenava e convidou-me para participar do banquete. Naquele instante, eu era imortal e digna de poderes divinos.
A deusa Hebe, veio sorridente em minha direção e fez um gesto com a bandeja, que continha néctar. Talvez, por curiosidade ou sede, tomei toda a bebida. Sem dúvida, o líquido adocicado era de ótima qualidade. É claro que não deixei de experimentar todas as iguarias.
Os deuses me olhavam torto - devia ser por causa da minha roupa, pois eu estava usando uma calça jeans, a blusa era um pouco decotada e a sandália rosa pink. Percebi que a deusa Minerva me observava e logo fez um gesto com as mãos. Já sabia que ela queria conversar, então, levantei e fui saltitante ao seu encontro.
No entanto, não gostei da crítica que ela fez da minha roupa. Mas, de imediato, compreendi que a deusa estilista confeccionava túnicas e diversas peças dos vestuários de quase todas as deusas.
Deixei ela à vontade e, em questão de segundos, eu estava com uma roupa de seda novinha. Minerva ainda questionava sobre meu modelito, dizendo que o pano do vestido que eu usava era verde com detalhes dourados. Logo essas cores não combinavam com a minha sandália rosa pink. Pensei que ficaria descalça, mas ela me apresentou o Vulcano (Hefesto). O deus aparentava seriedade e era conhecido pelas seguintes profissões: arquiteto, ferreiro, armeiro, construtor de carros, artista de todas as obras do Olimpo e, o principal, ele fazia sandálias de ouro.
As sandálias eram mágicas, ou seja, os imortais poderiam caminhar tranquilamente sobre a água ou ar e se mover de um lado para o outro, com a velocidade do vento ou a força do inconsciente.
Achei estranho caminhar com aquelas sandálias. A Minerva batia palmas de tanta alegria e admiração. Eu me achei feia, mas, por enquanto, deveria me adequar àquela cultura. Voltei para o salão e ouvi a triste história do Rei.
Zeus, pai dos deuses e dos homens, possuía uma expressão serena que brilhava como um poder cósmico. Porém, ele teve uma vida difícil. Seu pai, Saturno (Cronos), e sua mãe, Réia (Ops), pertenciam à raça dos Titãs e surgiram do caos. Saturno era um monstro que devorava os próprios filhos. No entanto, Zeus foi o único que fugiu desse destino.
Já crescido, procurou a deusa Métis (Prudência), cujo poderes medicinais fizeram Saturno vomitar os irmãos de Zeus.
Um sorriso enigmático brotou no canto da boca do Rei. Percebi que ele me olhava esquisito. Bom, eu já tinha lido sobre a sua fama de sedutor e conhecia também a ira e o ciúme possessivo de Hera (Juno). Ainda bem que a deusa não percebeu aquela troca de olhares furtivos...


3 de abril de 2008

Circe, a malvada



Tela: Wright Barker

Circe, a célebre bruxa, desempenha um papel importantíssimo no livro de Homero (Odisséia). A história narra a viagem e as dificuldades que Odisseu (Ulisses) enfrentou antes de regressar para sua ilha Ítaca. E uma de suas paradas foi no palácio da feiticeira Circe, filha do sol.
Sob comando de Ulisses, seus companheiros foram em busca de hospitalidade. Nas redondezas do palácio encontraram diversos animais que, por natureza, deveriam ser selvagens. Mas os leões, tigres e lobos eram tão mansos que pareciam gatinhos indefesos. Não dando importância aos “bichinhos”, os companheiros do herói entraram no palácio. A deusa serviu a todos com bebidas e iguarias. Detalhe: a tripulação de Ulisses não sabia que Circe era feiticeira e tomou um licor encantado. Os corajosos aventureiros foram transformados em porcos. Eurícolo conseguiu fugir da armadilha. Apressou-se em voltar para o navio e relatou aquilo que vira. Ulisses dirigiu-se até o palácio e convenceu a bruxa para que desfizesse todo o feitiço. Logo, o herói trouxe seus soldados de volta para os navios sãos e salvos.
Essa foi à história narrada por Homero, mas o pensador La Fontaine conta uma versão totalmente diferente. Ou seja, através de suas fábulas, o escritor tomou como tema a mitologia clássica e reconstruiu, de modo reiventivo, muitas dessas lendas. E uma delas diz respeito aos companheiros de Ulisses (lenda já citada acima). A diferença é que seus amigos foram metamorfoseados em ursos, leões e lobos. Porém, eles se recusaram voltar à espécie antiga. A explicação de um dos homens que fora transformado em rei das selvas foi a seguinte:

“Perder garras e juba?
Posso com estas presas
A postas reduzir
A quantos temerários
Me ousarem agredir.
Rei sou – voltando a homem,
Também volto a soldado.
Para ser simples vassalo,
Não vão me mudar de estado.”

Ulisses ficou perplexo, mas não desistiu das perguntas. Dirigiu-se ao urso e tentou convencê-lo a voltar sua forma anterior. O urso respondeu irritado:

“Não vês que sou urso!?
Eu tenho o feitio que Deus dar-me quis,
Quem acha dos homens mais bela a figura?
Quem é que da nossa te arvora em juiz?
Oh! Deixe-me; vai-te; prossegue o teu rumo.
Se – sob este aspecto – não gostas de mim
Eu vivo contente, sou livre e não sinto
Tirar-me o sossego, pensão, nem cuidado;
Rejeito a proposta; não mudo de estado.”

Sua última pergunta foi para o lobo. Pediu para que abandonasse a floresta e se despisse da pele nojenta. O lobo respondeu uivando:

“Ai, que vai torta!
Já se viu maçada igual!
Quem és tu, que ousas tratar-me
De carnívoro animal?
Quem deste modo me increpa
Pouparia as ovelhinhas?
Se eu homem fosse, as poupara,
Menos, que as feras daninhas?
Por uma palavra, às vezes,
Não vos matais mutuamente,
Fazendo o papel de lobos,
Perdendo os foros de gente?
Eu penso, por fim de contas,
Que, malvado por malvado,
Melhor é lobo, que gente
Não quero mudar de estado.”

Assim, como na mitologia clássica, o fantástico mundo das fábulas também traz várias lições de moral. Ulisses termina a história frustrado por não ter trazido seus amigos de volta para o estado físico original. Então, ele deixa uma mensagem interessante:

“Torna-se em homens,
Quem diz? Não querem,
Ser sempre fera
Todos preferem
Matar a fome
Seguir o instinto
Vagar das selvas
No labirinto;
Eis as delícias
Da estulta grei
Surda a incentivos
Rebeldia à lei
Julgam ser livres
Nas solidões
Cevando, as soltas,
Brutais paixões.
Curto bestunto
De bichos bravos!
Dos próprios vícios
São mais que escravos.

As fábulas contêm milhares de ensinamentos. Através delas você identifica a cobiça, vaidade, preguiça, mesquinhez, avareza e a corrupção. La Fontaine usa os bichos como protagonistas em seus textos morais.
Na visão satírica do pensador francês, a mensagem deixada pelos companheiros de Ulisses foi que, para eles, é melhor ser bicho. Isso porque os aventureiros temiam perder a força animal que adquiriram com a transformação.
Os soldados sonhavam com a liberdade. Ou seja, sendo senhores da floresta não precisavam mais de se preocupar em pagar pensão, trabalhar ou voltar a ser vassalos.


17 de março de 2008

João Victor na pele de Ícaro

Os últimos acontecimentos envolvendo o garoto João Victor Portelinha causaram reviravoltas e reflexões sobre a facilidade de ingressar em faculdades particulares. A história do menino de oito anos recorda um personagem da Grécia antiga, cujo nome era Ícaro. O mito de Ícaro pode ser comparado com pessoas vítimas de projetos ambiciosos.
Conta-se a lenda que esse personagem mitológico ficou famoso pela sua queda no mar Egeu. Isso porque Ícaro e seu pai, Dédalo – um dos homens mais inteligente, habilidoso e responsável pela construção do labirinto que aprisionava o terrível Minotauro –, foram condenados a prisão eterna pelo rei Midas. Então, Dédalo e seu filho iniciam uma fuga por via aérea. Depois de terem arrancado as penas de vários pássaros, projetaram asas e fixaram com cera.
Antes do vôo, Dédalo advertiu seu filho de que deveria voar não muito alto, por causa do calor do sol. Nem tão baixo, para o mar não molhar as asas. Os dois voavam e, pela primeira vez, se sentiram como deuses pensando que, talvez, tinham dominado todo o ar. Mas Ícaro, fascinado pelo esplendor do sol, se elevou em demasia no céu. Logo toda cera fixada nas asas se derreteram e o pobre garoto caiu no mar Egeu.
Que história! Acho que agora ficou mais claro de entender onde eu quero chegar. Sem sombra de dúvidas, João Victor foi vítima de sua própria precipitação. Tudo tem sua hora. Depois da fama momentânea, o surgimento de tristezas e frustrações intelectuais pode aparecer logo em seguida. O "fracasso" tem lá seus benefícios, pois ele desperta e estimula. O sucesso fácil também é bom, mas embriaga e envaidece demais as pessoas.
João Victor não tem culpa. Ele foi seduzido pelo seu sonho e topou em participar juntamente com seu pai nessa incrível aventura. Assim como Dédalo, o pai de João Victor usou toda a criatividade e preparou o vôo do seu filho para queda. A única coisa a se fazer agora é recomeçar. Só que dessa vez eles devem usar outras armas, algo que seja mais do que plumas e ceras.


1 de março de 2008

Amor impossível

Poucos mortais conhecem a história da Eco. Mas até hoje a deusa existe e está presente em nossas vidas. É possível encontrá-la em lugares distantes e solitários das montanhas. Onde vários sons, rumores, ruídos e os cantos lamentosos dos pássaros são imitados e repetidos. Ela segue todas as pessoas que caminham próximo do seu lar e brinca livremente dando nova vida as vozes que vem de longe para visitá-la. Ela se sente feliz quando ouve as crianças brincando e sempre responde seus risos alegres, mas também as assusta com os arremedos fantasmagóricos que à noite faz ressoar.
Esse é o pesadelo vivenciado pela ninfa Eco, cuja maldição terrível transformou sua vida numa tristeza sem fim. As carnes do seu corpo se definharam e desapareceram inteiramente. Os ossos viraram rochedos e a única coisa que restou foi a voz. Antes da maldição, todos os deuses e mortais eram contagiados com sua energia festiva e encantadora.
Mas num belo dia Eco despertou ira e ódio de Hera (Juno), rainha dos deuses. Tudo porque a deusa ciumenta procurava exaustivamente seu promíscuo marido - Zeus (Júpiter) - que, escondido, se divertia com as jovens ninfas.
Porém, Eco tentou salvar a pele de Zeus e deteve a deusa possessiva com sua conversa, até que as amantes fugissem para algum lugar seguro. Hera, inconformada com a trapaça, amaldiçoou impiedosamente a tagarela ninfa. E disse que a partir daquele momento ela só repetiria a última palavra que seus ouvidos escutassem.
A ninfa caminhava pelo bosque se sentindo mutilada e, quando viu passar o belo Narciso, logo compreendeu que morreria se não conquistasse seu amor. A partir daquele instante ela precisava, ao menos, vê-lo todos os dias. Era um amor platônico, irrealizado e impossível. Mas ela insistia e sonhava que, em algum momento, eles poderiam se juntar e ter uma vida feliz. No entanto, Narciso foi cruel e desprezou a pobre ninfa. Então, Eco ocultou sua dor na solidão dos penhascos e montanhas, nas cavernas e bosques, no escuro profundo das florestas e fazendas.
Os dias foram passando e Narciso não dava a mínima para o amor verdadeiro de Eco. Várias ninfas que também se apaixonaram e foram rejeitadas por ele desejaram que os deuses o punisse. A furiosa ninfa castigou completamente Narciso, fazendo ele sentir o gostinho da ânsia de uma paixão não correspondida. Assim, Narciso inicia um louco amor por si mesmo.
Certo dia, cansado e com sede depois da caça, ele curvou-se sobre a fonte para beber. Mas se surpreendeu ao ver, através da água, aqueles olhos que encontravam aos seus. Ele sorria e os lábios correspondiam e se entreabriam noutro sorriso. Ele erguia os braços e a imagem repetia o gesto. Por fim, o presunçoso deus tentou agarrar e beijar aquela incrível criatura. Mas foi tudo em vão, pois aquele ser era seu próprio reflexo. E assim, depois de vários dias sem comer e dormir, sua alma mergulhou para o reino de Plutão – deus dos mortos. As ninfas vingativas procuraram em todos os cantos o odioso corpo – prepararam até uma pira funerária com suas próprias mãos. Antes que isso acontecesse, o deus do Olimpo transformou o belo jovem numa flor branca, do qual recebeu o nome de Narciso.

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Muitas vezes relembro aquele dia

Em que fui despertada a vez primeira

Do meu sono profundo. Sob as folhas

E as flores, muitas vezes meditei: Quem era eu? Aonde ia? De onde vinha?

Não distante de mim, doce ruído

De água corrente vinha. De uma gruta

Saía a linfa e logo se espalhava

Em líquida planície, tão tranqüila

Que outro céu tranqüilo parecia.

Com o espírito incerto caminhei e fui

Na verde margem repousar do lago

E contemplar de perto as claras águas

Que eram, aos meus olhos, novo firmamento.

Ao debruçar-me sobre o lago, um vulto

Bem em frente de mim apareceu

Curvado para olhar-me. Recuei

E a imagem recuou, por sua vez.

Deleitada, porém, como que avistava

Novamente eu olhei. Também a imagem

Dentro das águas para mim olhou,

Tão deleitada quanto eu, ao ver-me.

Fascinada, prendi na imagem os olhos

E, dominada por um vão desejo,

Mais tempo ficaria, se uma voz

Não se fizesse ouvir, advertindo-me:

"És tu mesma que vês, linda criatura."

Paraíso Perdido, Livro IV

John Milton



17 de fevereiro de 2008

Celebridades da filosofia

O auge dos filósofos gregos ocorreu aproximadamente em 440 a.C. Naquela época, eles eram tratados como celebridades. Várias cidades gregas proibiam comentários filosóficos. Isso porque achavam as discussões bobas e sem fundamentos.
Só em Atenas que os intelectuais eram bem tratados e aclamados. No entanto, a inteligência das “estrelas” e os argumentos lógicos e convincentes viraram um verdadeiro modismo na cidade e os estadistas começaram a ficar preocupados com o fim da moral do Estado. Por volta de 434 a.C, o medo dos poderes sobrenaturais, misticismo e superstições foi diminuindo aos poucos. Em Atenas, os gênios da filosofia contribuíram para esse processo de libertação. Isto é, o temor aos deuses ou os objetos de adorações religiosas como ar, fogo e água foram desaparecendo. Isso se deu através dos ensinamentos da literatura, ciência, filosofia e política. Muitos professores cobravam preços altíssimos e diversos alunos desacreditavam nos deuses e até mesmo perdiam a fé religiosa. Quando chegavam a tal ponto os educadores eram acusados de sofismo venal. Ou seja, vendiam sabedoria falsa ou argumentavam com falso raciocínio induzindo ou persuadindo as pessoas ao erro. Naquele período, Protágoras causou grande alvoroço ao dizer: “O homem é a medida de todas as coisas”. E surpreendeu a todos quando duvidou da existência dos deuses. Mas é claro que os atenienses não deixaram essas ideologias passarem batidas - de imediato queimaram todos seus livros e exemplares. Como se não bastasse, mandaram Protágoras embora de Atenas.
Os intelectuais conquistaram amor e ódio de muitos atenienses. Observando todos esses conflitos filosóficos, já imaginamos como foi difícil e triste a carreira e o destino de Sócrates. Ele era uma celebridade grega e provocou a ira de Anito, líder do partido democrático de Atenas. O motivo, provavelmente, foi o modo irritante de fazer questionamentos. Além de ser uma má influência moral para os jovens e a democracia. Então, com sede de vingança, Anito achou conveniente que o filósofo deixasse Atenas ou morresse. Sócrates foi condenado a morte. Mas preferiu o suicídio tomando cicuta.
Em 399 a.C, Platão, aos 28 anos, foi um dos mais importantes seguidores do gênio suicida. Apoiou e deu continuidade às idéias e aversões do mestre pela democracia. Com certeza as obras e livros de Sócrates também foram queimados. Mas o fiél discípulo, Platão, prosseguiu com os ensinamentos do intelectual e descreveu um Sócrates a partir da sua imaginação - como se o mestre ainda estivesse vivo.
Platão sentia-se revoltado com comportamento dos políticos democratas, pois eles sempre davam razão e atendiam aos pedidos da plebe. Isto é: a plebe eram homens livres que se dedicavam ao comércio, artesanato e trabalho agrícola. Constituíam a maior parte da população grega. Segundo Platão, toda essa liberdade provocou consequências e espalhou vulgaridade nos costumes tradicionais, na moral da civilização e artes. Os padrões de conduta e gostos viraram um caos. Ou melhor dizendo: um verdadeiro "deus nos acuda".
Nos seu famoso livro A República, Platão ainda acreditava no comunismo, mas logo viu que não seria possível aplicá-lo na sociedade, pois os seres humanos, por natureza, são egoístas, interesseiros, e ocasionalmente assassinos.
Já velho, Platão fez sua última obra As Leis. Trata-se de assuntos diversos como eleições, direitos e oportunidades iguais para as mulheres. Bebidas e diversões deveriam ser regularizadas para manter a moral do povo. O Estado determinaria quais deuses deveriam ser venerados e como. Devido as novas leis a filosofia estava pronta para uma nova religião e a Grécia para um novo rei.
Platão criou a Academia e Aristóteles, o Liceu. Ele optou pelo mais belo Ginásio de Atenas, um conjunto de construções erguidas para homenagear Apolo Liceu (deus dos Pastores) cheio de flores, bosques e alamedas cobertas.
Aristóteles foi aluno de Platão e se inscreveu na sua Academia, cujo portão principal havia uma mensagem:"Que ninguém entra aqui sem a geometria". O maior interesse de Aristóteles era fazer pesquisas científicas. Uma das suas obras principais, que quase alcançou a teoria da evolução, foi Sobre a História dos Animais. No seu Tratado Sobre a Alma o intelectual definiu a alma ou psiquê como "os poderes de nutrição, crescimento e decadência de um organismo".
Por fim, Aristóteles agradou várias pessoas com suas idéias claras e brilhantes sobre o segredo da felicidade, a virtude da inteligência e a política como uma arte de compromisso entre as classe sociais. Ele foi ainda professor e mestre de Alexandre, o Grande.


14 de fevereiro de 2008

Fascínio mitológico

Sem dúvida nenhuma, a mitologia grega se tornou a obra mais rica, diversa e fascinante que conhecemos. Os mitos gregos ainda são temas de inspiração tanto em a literatura, paixão, arte, psicologia e costumes quanto para relações familiares, laços sociais, filosofias e pretensões políticas dos nossos tempos. Mas, afinal, o que é a mitologia? Designa o conjunto de mitos (mythos) - no vocábulo grego, é a palavra, conto, fala ou história - que pertence ao povo, civilização ou uma comunidade.
As divindades gregas são lembradas como criaturas imaginativas ou metáforas de variados livros e poesias. Sendo assim, Zeus (Júpiter) era um sedutor insaciável e digno de uma energia sexual infinita que, na maioria das vezes, atraia quase todas as ninfas. E o Cupido (Eros) era um pentelho malicioso e esperto. Que despertava, com suas flechas mágicas, excitação, loucura, amor e paixão nos corações dos homens e deuses. Esquecemos que a mitologia, naquela época, se equivalia a uma religião. Vários animais eram sacrificados para os deuses e até mesmo pessoas - o melhor exemplo fica por conta da filha de Agamenon que foi morta na viagem para Tróia. E isso tudo em troca de uma brisa favorável. Por volta de 450 a.C, essa religião convicta era cultuada pelas pessoas com objetivo de proporcionar uma vida moral para os povos: ou seja, cada casa tinha um deus, cuja missão era manter a família unida. E toda cidade também possuía uma divindade protetora.
A criatividade dos mitos gregos contaminou as tradições populares dos povos menos esclarecidos que, de certo modo, acreditavam ingenuamente em todas as lendas. Então, muitos heróis ganhavam características físicas sadias, joviais, belas e otimistas. Poderiam ser golpeados pelos adversários, mas não podiam ficar abatidos ou derrotados. Isso não quer dizer que os heróis sempre tinham finais felizes. Ou seja, a felicidade era subjugada pelas mulheres com quem se relacionavam. Portanto, as esposas ou amantes dos heróis se submetiam a grandes aventuras e às vezes entravam em enrascadas por conseqüência de suas apaixonadas devoções. Quando abandonadas, eram tomadas de ódio, loucura e desespero vingativo.


15 de janeiro de 2008

Obsessão de Apolo

As lendas mitológicas, principalmente as de romances, trazem sempre finais trágicos. Muitos episódios parecem não ter o menor sentido, no entanto, os mitos contém alguma verdade moral. Um dos romances mais surpreendentes, a meu ver, é a de Apolo e Dafne. Na narrativa, Apolo se mostra louco de amor pela bela ninfa. Cupido, filho da deusa do amor, Vênus, se diverte lançando duas poderosas flechas. Uma criada para atrair o amor, outra para afastá-lo. A primeira flecha, que acertou o coração de Apolo, era a de ouro. A segunda, que feriu a ninfa Dafne, era a de chumbo. Então, o destino de Apolo era seguir o caminho do amor impossível. Dafne corria exaustivamente de todos os homens. A deusa continuou sua fuga fugindo do obcecado deus Apolo. E, mesmo fugindo, ela o encantava. O vento acariciava cada parte de seu corpo. Ele ficava maravilhado com o balanço dos seus cabelos soltos e brilhantes.
Assim voavam o deus e a ninfa. Ela com asas de medo, ele com asas de amor.
A virgem Dafne, suplicou ao seu pai rio-deus Peneu que tirasse todas as curvas do seu belo corpo. O pedido foi aceito. Em questão de segundos, o corpo de Dafne ganhou novo formato e seus cabelos transformaram-se em folhas. Assim a bela ninfa, foi metamorfoseada em Loureiro.
Desde então, Apolo, em homenagem a deusa, utiliza as folhas de louro como coroa. O loureiro passou a ser sua planta preferida.


11 de janeiro de 2008

A vida "difícil" dos deuses


O cume do Monte Olimpo (Tessália) era habitado pelos deuses mitológicos. Está é a maior montanha da Grécia, com 2.919 metros. Eles moravam em lugares diferentes da residência de Júpiter (Zeus). Deveriam comparecer no palácio quando eram convocados pelo o rei dos deuses. No salão, era servido ambrosia e néctar, sendo o último oferecido pela deusa Hebe. Muitos deuses visitavam a morada do rei todos os dias. Ali discutiam assuntos diversos como céu e a terra. Além de se deliciarem com alimentos e bebidas, ouviam belos sons musicais de Apolo (deus da música). As deusas cantavam e acompanhavam o som da lira. Outras deusas batizadas de Estações ficavam de prontidão no Monte Olimpo, permitindo a passagem dos imortais para a Terra através de uma porta de nuvem. Antes do pôr-do-sol os deuses voltavam aos seus aposentos para dormir.